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Dia 4
Jim Jarmusch, EUA, 2003, 96’
Site oficial
Site oficial português
SINOPSE
Série de pequenas histórias, COFFEE AND CIGARETTES | CAFÉ E CIGARROS é um projecto de Jarmusch que remonta a 1986, ano em que o realizador juntou pela primeira vez duas pessoas a uma mesa de café: Roberto Benigni e Steven Wright. Seguiram-se Tom Waits, Iggy Pop, Bill Murray, Steve Buscemi, Steve Coogan e Cate Blanchett, entre outros músicos e actores…
Fotografados a preto (café) e branco (cigarros), falaram sobre os efeitos (e usos) da nicotina, a adição do café, sobre tudo e sobre nada, sobre gelados de café, teorias da conspiração à volta de Elvis, numa série de conversas mais ou menos improvisadas, mais ou menos absurdas.
CRÍTICAS
COFFEE AND CIGARETTES | CAFÉ E CIGARROS é uma divertida colecção de dez curtas a preto e branco. Nas mãos de mestre de Jarmusch nunca o mundano foi tão delicioso.
MICHAEL RECHTSHAFFEN, The Hollywood Reporter
COFFEE AND CIGARETTES é muito simples, muito cool e muito divertido.
Eurico de Barros, Diário de Notícias
Do cinema americano independente vêm sempre bons ventos e bons casamentos. É de lá que nos chegas mais um filme de um realizador de culto americano: Jim Jarmusch. Ele é o autor de Ghost Dog e Noite na Terra, e primo 'artístico' de nomes como Spike Lee ou P.T. Anderson. Os seus filmes são sempre muito cuidados (por isso, também filma de longe a longe), cheios de referências e diálogos fascinantes. Este projecto - Café e Cigarros - é, também ele, especial: constrói-se a partir de uma série de situações que Jarmusch foi filmando ao longo destes anos (desde 1986), com um local comum: um bar, onde os personagens estejam a fumar e a beber café. Nessa condição (que é uma condição de prazer pelo vício) eles conversam, num diálogo sempre frutuoso, porque divertido, interessante e com uma linha narrativa interna (estes diálogos parecem crescer, entrar no conflito e depois na redenção).
Mas, um dos detalhes mais agradáveis é o facto destas situações serem repletas de uma parada de estrela. E então lá encontrámos: Roberto Benigni, Tom Waits, Iggy Pop, os White Stripes, Bill Murray (e outras estrelas da música americana), que encontram aqui a sua dimensão humana. Eles tratam-se apenas pelo seu primeiro nome, perdendo a aura e apresentando-se como são, na situação banal onde são colocados. É aí que o filme começa a ganhar uma outra dimensão porque, apesar de estarmos em conversas de café, elas conquistam o pormenor da autenticidade, de uma relação entre duas pessoas que se confrontam (um diálogo é sempre uma forma de confronto). Por isso mesmo, esta luta é evidenciada por um pormenor de mise-en-scène que ganha aqui especial relevância: as mesas estão sempre forradas com quadriculados como um tabuleiro de xadrez. É isso mesmo, então: o que aqui assistimos é a um jogo de xadrez verbal entre duas pessoas que se conhecem (como se estivem sempre a dizer a mesma coisa há muito tempo…).
Café e Cigarros é, neste sentido, um filme bastante diferente. Não tem uma linha narrativa convencional, isto é, todas as situações que vemos não tem uma relação de causa-efeito entre si. Estão separadas e nunca têm as mesmas personagens. É pois nesta diferença que notámos o detalhe da qualidade de muito do cinema independente americano: é a forma como o filme, como um todo, consegue adquirir uma coerência que lha dá um tom. Aí, o filme ganha todo o sentido do mundo. Como se uma luz nos atingisse. É isso precisamente que acontece na sequência mais interessante do filme, quando vemos dois velhos sentados num prédio decadente. Aí consegue-se perceber aquilo que o filme busca: a ilusão que nos confronta com a realidade e capacidade de tornarmos, assim, a entrever a redenção. Café e Cigarros é assim mesmo, como um vício (aliás, o filme nasce como a apologia dos vícios, como o café e o cigarro). Que bom ver estes objectos divergentes do cinema convencional...
DANIEL RIBAS, www.cdecritica.com/
Filmado a preto e branco, o charmoso novo filme de Jim Jarmusch, tem uma nostalgia inegável, um sentimento quase elegiático. O café nestas onze vinhetas discursivas, salvo uma excepção, é bebido em chávenas de porcelana e os cigarros são apagados em cinzeiros de vidro ou plástico duro.
COFFEE AND CIGARETTES - CAFÉ E CIGARROS - que Jarmusch realizou nos últimos 17 anos, na sua maioria nas pausas de outros projectos - é uma antologia de conversas entre pessoas famosas ou semi-famosas, que se interpretam a si próprias. […] Alguns episódios são anedóticos. […] Outros têm a densidade de boas curtas-metragens. O efeito acumulado é relaxante. Não que as pessoas no ecrã estejam propriamente à-vontade com elas próprias ou com os outros. Há conversas descontraídas (nomeadamente entre Murray e os rappers), mas a maioria destes breves encontros têm uma energia nervosa. Sob a influência da nicotina e da cafeína, as pessoas têm uma estranha capacidade de se irritarem umas às outras. Poderia pensar-se que um encontro entre Iggy Pop e Tom Waits seria sempre cool, mas os músicos ficam à defesa e passivo-agressivos na companhia um do outro. […]
Nos dois capítulos mais fortes - o de Cate Blanchett e o de Steve Coogan com Alfred Molina num diálogo de surdos de celebridades - o desconforto evolui para a inveja e a desconfiança.
Mas a riqueza total de COFFEE AND CIGARETTES - CAFÉ E CIGARROS não se pode isolar num único momento ou numa única interpretação, apesar do 'tour de force' de Coogan.
O filme, cheio de boa música, desde Mahler a Skatalites, muita ouvida em jukeboxes de restaurantes, tem a coerência de um velho LP. Algumas faixas são mais fortes que outras, mas a magia está nos ecos e nas harmonias entre as selecções.
A. O. SCOTT, The New York Times
IMPRESSÕES DO REALIZADOR
TOM WAITS, AS PIADAS SEM PIADA
No dia em que íamos filmar com Tom Waits e Iggy Pop, Tom estava de péssimo humor, porque tinha de partir para Los Angeles para a promoção do último disco na televisão. Consegui convencê-lo a fazer a curta pouco antes dele partir, e deixei-lhe na véspera o guião, em casa dele. Tom chegou duas horas atrasado, desculpando-se dizendo que tivera de deixar os filhos na escola. Iggy e eu estávamos à espera e quando Tom chegou, disse-me: ‘Jim, disseste-me que esta curta-metragem era divertida. Li o argumento e pergunto-me onde estarão escondidas as piadas porque não encontrei nenhuma’. E aí saiu e foi apanhar ar, fumou um cigarro e voltou na mesma para dizer o texto. Essas foram as circunstâncias que me levaram a dar o papel de ‘mau’ a Tom, mas tenho consciência que podia ter sido o contrário. Aliás, o argumento é bastante neutro, para permitir inverter os papéis. E nessa manhã, Iggy estava generoso.
IGGY POP, A GENEROSIDADE
No fundo, Iggy é um tipo incrivelmente sério quando não é Iggy, mas simplesmente James Osterberg, o seu nome civil. Quando chegou para a rodagem era James Osterberg: cool, lúcido, articulado. Infelizmente, ou felizmente, não sei, quando ele decide ser Iggy, tudo se transforma. Quando está em palco só é Iggy. Mas já me aconteceu vê-lo transformar-se em Iggy noutras alturas, o que é assustador: ele é capaz de fazer qualquer coisa, de se atirar contra as paredes! Sou fã da música dele desde 1969 e hoje sou amigo dele e poder dirigi-lo como actor é uma alegria incomensurável. Quando filmei ‘Dead Man’, em que ele tem um pequeno papel, Iggy decidiu improvisar no momento em que devia matar-se. Tinha algumas reticências, mas resolvi deixá-lo, e foi fantástico. Em COFFEE AND CIGARETTES | CAFÉ E CIGARROS, Iggy também está indirectamente presente na curta dos White Stripes. Ouve-se ‘Down on the Street’ de ‘Fun House’ dos Stooges, a sair de uma jukebox, simplesmente porque eu e Jack achamos que é o maior disco de rock de todos os tempos.
OS WHITE STRIPES, O RADAR E OS BLUES
A primeira vez que falei com Jack White foi porque ele me telefonou para eu realizar um videoclip dos White Stripes. Nessa altura, disse-me que, tal como eu, ele era um apaixonado pelo inventor Nikola Tesla (pai do radar, da energia hidroélétrica e do motor de indução). Um dia em que ele estava de passagem por Nova Iorque, convidei-o para vir até minha casa e ele passou mais de uma hora a ver os meus livros sobre o Tesla, quase sem balbuciar palavra. Alguns meses mais tarde, mandei-lhe o argumento, fazendo-lhe a proposta de recriar alguns dos inventos de Tesla. No plateau, Jack era como um miúdo, não parava de brincar com o seu brinquedo. Durante a rodagem, quando a Meg e o Jack perceberam que eu impunha alguns limites a todas as curtas de COFFEE AND CIGARETTES | CAFÉ E CIGARROS, discutimos algumas contradições artísticas. Gosto da forma como Meg e Jack assumem o controlo, através de estratégias oblíquas: o vermelho, o preto e o branco. Eles fixam limites, mas ao mesmo tempo são livres.
À minha maneira, também gosto de impor este tipo de regras, isso desenvolve a minha criatividade. Isso vem dos primeiros filmes que realizei: não tinha muitos meios e tinha de encontrar formas para fazer coisas que não podia pagar. Com Jack e Meg também passei horas a falar de blues. Conhecem toda a sua história e discografia. São verdadeiras enciclopédias. Gosto desta geração de músicos que não tem medo de esgravatar no passado. Encontro o mesmo espírito nos tipos do Wu-Tang, que dominam toda a música negra, do hip-hop à soul.
RZA E GZA, O WU-TANG, O KUNG-FU
RZA e GZA dos Wu-Tang conhecem todos os filmes de kung-fu que estrearam na Terra: títulos, realizadores, actores. Quando encontrei RZA pela primeira vez não demorámos mais de dez minutos a decidir o que seria a banda-sonora de ‘Ghost Dog’. Tudo era claro, límpido: reproduzíamos cenas de kung-fu e RZA já tinha ideias de música. Adoro a diversidade dos tipos do Wu-Tang: de GZA a Ghostface Killah, de RZA a Ol'Dirty Bastard, todos são muito diferentes. Por exemplo, numa das curtas-metragens RZA diz a GZA que estudou medicinas alternativas e toda a gente pensa que é uma brincadeira, mas é verdade: RZA é um apaixonado pela homeopatia, ele quase que podia exercer.
Muitas vezes as pessoas têm tendência a achar que os tipos do hip-hop vivem em permanência em clichés, que só falam de música, mas são essas pessoas que têm muitos clichés. Fab Five Freddy, um dos pioneiros do rap em Nova Iorque, é um velho amigo meu, e Rammelzee é uma verdadeira lenda do hip-hop e entra num dos meus filmes, ‘Stranger than Paradise’. Acho que estes tipos são das pessoas mais abertas que já conheci, muito mais abertas que muitos músicos de rock. Tenho dificuldade em classificar, em diferenciar tipos de música. Para mim o hip-hop e o punk são convergentes e tenho dificuldade em separá-los. No início dos anos 80, tanto ouvia Africa Bambaataa como os Clash.
JOE STRUMMER, A ESPANHA E AS REVOLUÇÕES
Perder Joe Strummer foi muito difícil para mim. Fez-me ter consciência da fragilidade da vida. Joe era capaz de me telefonar de manhã e dizer-me [imita-o] ‘Hey rapaz, devíamos ir dar uma volta a Espanha, beber uns copos juntos’ ou ‘Hey rapaz, devias dar uma espreitadela ao novo disco de cantores revolucionários colombianos, é simplesmente fantástico’. Era um tipo cheio de entusiasmo e energia que gostava de partilhar as suas emoções. E depois, de repente, desapareceu. Gostava muito que ele entrasse no filme, ele deveria entrar neste filme, por isso é que lho dediquei.
depoimento recolhido por
PIERRE SIANKOWSKI, Les Inrockuptibles, Nº436
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REALIZAÇÃO
Jim Jarmusch
ARGUMENTO
Jim Jarmusch
DIRECÇÃO DE FOTOGRAFIA
Frederick Elmes
Ellen Kuras, Asc
Robby Müller
Tom Dicillo
MONTAGEM
Jay Rabinowitz
Melody London
Terry Katz
Jim Jarmusch
Design d Produção
Mark Friedberg
Tom Jarmusch
Dan Bishop
INTERPRETAÇÃO
Roberto Benigni
Steven Wright
Joie Lee
Cinqué Lee
Steve Buscemi
Iggy Pop
Tom Waits
Joe Rigano
Vinny Vella
Vinny Vella Jr.
Renée French
E.J. Rodríguez
Alex Descas
Isaac De Bankolé
Cate Blanchett
Meg White
Jack White
Alfred Molina
Steve Coogan
Gza
Rza
Bill Murray
Bill Rice
Taylor Mead
ORIGEM
EUA, 2003
DURAÇÃO
96






JIM JARMUSH
2003
Coffee and Cigarettes - Café e Cigarros
2002
Ten Minutes Older: The Trumpet
1999
Ghost Dog - O Método do Samurai
1997
Year of The Horse
1995
Homem Morto (Dead Man)
1991
Noite na Terra (Night on Earth)
1989
Mistery Train
1986
Down By Law
1983
Stranger Than Paradise
1980
Permanent Vacation
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Dia 11
Barbara Loden, EUA, 1970, 102'
Site oficial português
Assim que soubemos que já estava disponível não hesitámos um segundo! E substituímos o filme previsto por este, Wanda, uma obra-prima, um filme maldito (que curiosamente havíamos adquirido em VHS também este ano, antes de sabermos que teríamos o privilégio de o ter estreado em Portugal, o que é dizer, no Cineclube também), um filme único, um único filme. Absolutamente imperdível. E, particularmente, como sabe bem poder incluí-lo onde ele é farol! - num ciclo de cinema independente!
WANDA, ÚNICO FILME REALIZADO PELA ACTRIZ BARBARA LODEN, MULHER DO REALIZADOR ELIA KAZAN, É CONSIDERADO UMA OBRA-PRIMA, RETRATO DE UMA MULHER À DERIVA. O FILME, REALIZADO EM 1970, ESTREIA AGORA EM PORTUGAL.
SINOPSE
Casada com um mineiro da Pensilvânia e mãe de duas crianças, Wanda não trata deles, nem da casa, e passa a maior parte do dia no sofá da sala, em roupão, chinelos e rolos no cabelo. Sem desejos, motivações ou força de carácter, Wanda deixa que o marido peça o divórcio e fique com a custódia dos filhos. Sozinha, sem casa, nem dinheiro, Wanda erra sem destino. Até que acaba por conhecer um ladrão, Dennis, de quem se torna amante e cúmplice.
DECLARAÇÕES
O seu trabalho como actriz fazia com que nenhum guião fosse definitivo. Para ela existia sempre um elemento de improvisation (digo-o em inglês por ser mais exacto). Havia sempre improvisation no que ela fazia, era sempre uma surpresa. O único a ser também exactamente assim foi Brando, quando era novo. Ele nunca sabia exactamente o que ia dizer, por isso tudo saía verdadeiro da sua boca. (...)
Ela representa no filme uma personagem que temos na América e que existe, suponho eu, em França e em todo o lado, a que chamamos floating (vagabundo). Uma mulher que flutua à superfície da sociedade, ao sabor da corrente. Mas, na história deste filme, o homem que ela encontra precisa dela. Durante alguns dias ela tem uma direcção e, no fim, quando ele morre, ela regressa à sua errância. Ela compreendia a personagem muito bem, porque quando era nova, era um pouco assim. Disse-me uma vez uma coisa muito triste: ‘Preciso de um homem para me defender’. Acho que a maioria das mulheres sabe o que isto é, mas não tem honestidade suficiente para o admitir. E ela dizia-o com tristeza.
ELIA KAZAN
WANDA é uma obra-prima. Se Barbara Loden nos emociona é porque é um anjo que nos conta a sua balada solitária no país dos homens. É a sua ‘Noite do Caçador’, uma noite que nos ilumina.
Foi uma surpresa para mim - descobri um filme extraordinário, extraordinariamente comovente, e sem cair em lugares-comuns. Podemos dizer verdadeiramente que é moderno, ou actual - tanto podia ter sido feito hoje, como há 30 anos. Não é nada datado.
ISABELLE HUPPERT
CRÍTICAS
É um filme chamado ‘Wanda’. A história de uma mulher que precisa de um homem para existir. É a única obra de uma mulher chamada Barbara Loden. Esquecida das listas do cinema da década de 70, está aí para assombrar os espectadores de hoje. Murmura-nos ao ouvido: eu existi. É o melhor filme em cartaz.
É como se o vulto caminhasse através das décadas, para chegar até nós, espectadores de hoje, vindo dos anos 70: figura branca entre dunas negras, um fantasma numa mina de carvão.
Vai desaparecer, engolido pelos montes, ou resistirá às dunas?
É um dos primeiros planos de um filme chamado ‘Wanda’ (1970), realizado por Barbara Loden: a câmara afastou-se o mais que pôde, até tornar o ser humano apenas um ponto branco no ecrã cinzento, para assim apresentar a personagem - uma mulher, Wanda, origem proletária, Pensilvânia, EUA. Ao ver hoje o filme, que nunca constou da iconografia da ‘década mais liberal do cinema americano’, que ficou esquecido - que (como dizem alguns arqueólogos do tempo) foi ‘apagado’ da história oficial - o plano do vulto errante parece estar ali para nos assombrar (e é assombroso): Wanda vem caminhando, e ‘Wanda’ aproxima-se e uma realizadora, Barbara Loden (1932-1980), também intérprete, segreda-nos, como as criaturas dos sonhos que querem passar para o lado de cá: eu existi.
Com um filme sobre uma mulher sem existência.
Foi numa página de jornal que Barbara Loden, ex-modelo, actriz (frustrada), casada com um ‘monstro’ da Hollywood clássica, Elia Kazan, encontrou aquela que seria a sua única obra cinematográfica. Foi no relato do julgamento de uma mulher por cumplicidade no assalto a um banco, condenada a 20 anos de prisão, que, depois de lida a sentença, agradeceu ao juiz, foi nesse agradecimento que Barbara encontrou Wanda. (Foi aí que Barbara começou a encontrar-se como artista, demanda que é duvidoso que ela tenha cumprido - morreu precocemente, vítima de cancro, e numa altura em que o filme, apesar de elogios de jornais nova-iorquinos e de um prémio no Festival de Veneza no ano da estreia, fora esquecido).
à boleia da existência. Wanda (Barbara Loden) é uma penetra da existência. Rodeada de minas de carvão, abandona os filhos, concorda que o marido peça o divórcio porque ela não é boa mulher nem boa mãe (‘eles estão melhor com ele’), e fica à espera de um homem que passe para ela apanhar boleia de saída.
Um dia, entra numa ‘drugstore’ e encontra Mr. Dennis (Michael Higgins) - vai sempre chamá-lo ‘Mr. Dennis’. Mr. Dennis é um assaltante na América profunda, também ele à procura de uma saída.
Wanda entra no ‘drugstore’ - não pede licença para entrar - e surpreende Mr. Dennis no meio de um roubo. Não é claro que Wanda tenha percebido a cena. Mas a sua passividade e sonambulismo são movidos a desespero, o que faz com que todos os gestos, mesmo os de alheamento, sejam determinados: sobrevivência.
Wanda precisa de um homem para sentir que existe. Wanda é das personagens mais insondáveis e comoventes do cinema americano: passiva e simultaneamente vampira, vítima trágica e sobrevivente à procura da oportunidade, enigmática mas a emitir sinais para que reparem nela. (Correcção: Wanda e Mr. Dennis são das mais comoventes personagens do cinema americano: esquecidos da América que esbracejam já pouco convictos de que há um momento para eles ao dobrar da esquina de um banco).
Podia pensar-se que esta alienação ia ao gosto do cinema americano da altura, influenciado pela contra-cultura, favorecendo as margens e a experiência alternativa. É verdade que a ‘nova Hollywood’, de finais dos anos 60, princípios dos anos 70, estava a ‘glamourizar’ o ‘outsider’, a fazer dele um ícone pop. A criar um contra-mito - não é ‘Bonnie & Clyde’, de Arthur Penn (1967), com Warren Beatty e Faye Dunaway, o símbolo dessa era?
Mas ‘Wanda’, (também) uma história de um casal de assaltantes, era o oposto disso (o filme de Loden estreou-se e houve logo comparações com a obra de Penn; a realizadora é que deixou claro: ‘É um filme de que não gosto. Fiquei mesmo chocada pela idealização das coisas. Podiam ter feito a mesma coisa mas de forma realista, com as mortes mas sem aquelas belas cores, aquelas pessoas belas... Pessoas assim tão belas não se tornam uns bárbaros... não têm necessidade disso. Têm outros meios para se safar. Bonnie e Clyde não eram belos na realidade. E, em todo o caso, o meu argumento foi escrito antes de 'Bonnie & Clyde'‘).
Não há horizonte mítico ao fundo do ‘road movie’. Não há heróis nem heroínas - que eventualmente se cumpram despedaçados por balas. A glória não é para Wanda e Mr. Dennis. Há um momento, o que precede o assalto, em que ela troca os ‘bigoudis’ no cabelo, algo que dá o ar de eterno e incompleto ‘work in progress’ à identidade, pelo mais acabado chapéu de penas. É Mr. Dennis que trata da nova apresentação. Em favor de um disfarce de respeitabilidade para facilitar a manobra assaltante. Sim, mas é também a prova de um guarda-roupa mítico - o casal americano modelo - que nunca lhes servirá.
Como ‘Wanda’, afinal, não encaixou no modelo dos virtuosos ‘movie brats’ que nesses anos estavam a ocupar Hollywood (e que em breve ocupariam as bilheteiras), porque era ‘imperfeito’, cru (mas de uma economia narrativa determinada), filmado em 16 mm, com personagens opacas - o filme foi rodado em 10 semanas, com uma equipa de quatro pessoas composta por Loden, Nick Proferes, director de fotografia e colaborador da realizadora, um técnico de luz e de som e um assistente; Loden e Michael Higgins eram os únicos actores profissionais, e o todo interagia, como num documentário, com as pessoas e com os locais (foi assim que tudo se passou, por exemplo, na sequência em que Wanda e Mr. Higgins encontram uma família que brinca com um avião telecomandado).
Como ‘Wanda’ não encontrava caução num discurso de libertação feminina, o que o pôs fora dos textos sobre o ‘the new women's cinema’. A narrativa não se organizada à volta de uma auto-descoberta, a independência também não estava ao virar da esquina. Não sobra uma personagem ‘positiva’: depois do assalto, que corre mal para Mr. Dennis, Wanda continua a vogar, agora diluída no meio da multidão de uma cidade. À espera, como um ‘desperado’ sonâmbulo, de outro homem, de outra boleia.
o milagre. ‘Wanda’ ficou um ponto branco e isolado, em vias de desaparecer, na paisagem americana. Depois da morte de Loden, começaram a evidenciar-se admiradores - sobretudo europeus. Um deles foi a escritora Marguerite Duras, que, numa conversa com Kazan em 1980, publicada na revista Cahiers du Cinéma, anunciava que queria distribuir o filme, para assim garantir - ‘com todas as minhas forças’ - que ‘Wanda’ tivesse existência junto do público (acabaria por ser a actriz Isabelle Huppert, em 2003, a comprar os direitos do filme que esta semana chega às salas portuguesas).
Na conversa com Kazan, Duras dizia (intuição lancinante) que havia um ‘milagre’ em ‘Wanda’: a ‘coincidência imediata e definitiva entre Barbara Loden e Wanda’. Kazan entendeu isso como uma coincidência de ‘jogo’ entre a actriz e a personagem, mas Duras precisou: ‘O milagre para mim não tem a ver com o jogo. O milagre é que ela [Loden] parece ser mais ela própria no filme, parece-me - por que eu não a conheci -, do que na vida real. Ela é mais verdadeira no filme do que na vida, e isso é milagroso’.
Sobre as coincidências entre a personagem e ela própria, Loden falou nas poucas entrevistas que deu [ver texto nestas páginas]: a origem proletária; a busca de uma identidade através de figuras masculinas - Mr. Dennis usa roupas que pertenceram a Elia Kazan, na altura casado com Loden; Mr. Dennis ‘dirige’ Wanda como um realizador dirige uma actriz (Kazan dirigiu aquela que seria sua mulher em alguns filmes, experiências que não foram gratificantes para ela), etc.
Mas em vez de uma narrativa autobiográfica do género ‘o que fui, de onde vim - e como ultrapassei’, ‘Wanda’ é uma experiência pessoal de confronto sem bálsamo, é uma ferida (a sua) que Barbara Loden mantém aberta com uma rodagem, reafirmando, confrontando, de forma cruel, uma verdade que era a sua. Hoje, mais de vinte anos depois, isso é um extraordinário murmúrio: eu existi.
Este, sim, é o melhor filme em exibição nas salas.
Vasco Câmara, Público
Alguns dariam a obra inteira de Elia Kazan pelo único filme realizado pela mulher Barbara Loden. WANDA (1970) continua a ser um filme desconhecido apesar de oferecer o retrato mais perturbador do cinema dos anos 70, com as mulheres sob a influência de Cassavetes. Realizado com um pequeníssimo orçamento, sem luz, sem guarda-roupa (a personagem masculina a vestir velhas roupas de Kazan), com a ajuda de Nicholas Proferes, formado pelo cinema-verdade de Leacock, nos anos 60, que trata tanto da fotografia como da montagem, WANDA é um tiro sobre o romantismo glamouroso de Hollywood, um negativo violento de todos os Bonnie and Clyde do mundo. A personagem de Wanda permanece uma figura magnífica. (...)
Ela é o tramp, o vagabundo, rejeitado pelas ordens sociais (o que lhe dá um poder crítico considerável: o burlesco) e forçada a viver uma vida à flor do sol, perto dos dejectos, sem domicílio fixo. Mas o tramp, o vagabundo, é pela primeira vez uma mulher. E isso muda tudo. (...) Socialmente é uma mulher indigna: quando sai da cama, ela já deixou tudo: o marido e os filhos. Tem de ir ao tribunal por causa do divórcio, mas chega atrasada, hesitante e indiferente (falando do marido: ‘se ele quer o divórcio, de-lho.’). Wanda está longe de ser uma mulher contestatária, uma rebelde, que afirma os seus desejos de toda a independência. Este retrato complexo pulveriza as outras mulheres ‘libertadas’ dos anos 70. (...) Com WANDA, tudo é muito mais complicado: ela parece livre e ao mesmo tempo comporta-se como uma verdadeira parasita. Ela agarra-se como pode aos homens com quem se cruza no caminho e torna-se um peso morto. E aí encontra o mestre, Mister Dennis (trata-o por ‘senhor’ como uma criança), um looser, um ladrão desajeitado. O filme decorre à medida da preparação de um assalto, falhado à partida, num grande banco, demasiado grande para eles. Mister Dennis trata-a como um cão. E na verdade ela parece um bocado estúpida. A grande ideia de Barbara Loden foi ter feito de WANDA uma personagem cómica. Ela passeia por uma parte do filme com rolos no cabelo. Fala com uma voz nasalada, frase entrecortada por soluços como se fossem pequenas síncopes. Na primeira refeição com Mister Dennis, ela nem repara que ele acabou de cometer um assalto, ou ela brinca. No entanto, comer o molho com o pão agrada-lhe enormemente.
WANDA não é indiferente, ela está simplesmente disponível. Ela flutua, espera que alguém lhe pegue (também sexualmente), espera que lhe confiem algo.
Primeiro está reticente quando Mister Dennis a empurra para o assalto, chega mesmo a recusar, chegando mesmo também a mostrar uma firmeza moral que até aí não se lhe conhecia. Depois, ele ralha com ela: ‘Podes não ter feito nada na tua vida, mas vais fazer isto’. Aí , ela sente que tem uma missão, que vai cumprir, orgulhosamente. Ela quer dar o seu melhor. Um laço muito discreto une os dois, longe da fúria dos amantes em fuga que atravessam o cinema americano. É um casal improvável, mas um casal mesmo assim.
Barbara Loden estava à frente do seu tempo: na inteligência, na denúncia da alienação feminina (Wanda só se pode definir em relação a um homem) e na sua exigência de inventar uma figura que não corresponde a nada que exista nem no cinema nem nos manuais de sociologia. Pois há um momento em que temos de nos render às evidências e dizer que Wanda nem sequer é uma mulher. Cada cena vem provar a sua nulidade, Wanda é uma pequena coisa sem utilidade. Ela faz-se à estrada porque não é boa em nada (‘não sou boa’, repete ela no filme). Ela é despedida do trabalho porque não é suficientemente rápida. Ela nem chega a ser ‘uma cidadã americana’, diz-lhe Mister Dennis. Ela retirou-se do mundo dos vivos. (...)
Quem é WANDA? Apenas uma figura negativa? No one? A imagem final envolve numa auréola esta ‘singularidade qualquer’ sem identidade, na linha dos anjos, dessas grandes figuras como Bartleby ou os hérois de Robert Walser. Duras não se enganou quando falou de ‘glória’ nesta ‘queda’; nem Godard que vê ‘esplendor’ nesta ‘miséria’: na sua edição de ‘Histoire(s) du Cinéma sob estas duas palavras, ele põe lado a lado o rosto de Wanda e de Joana D'Arc de Bresson’. A pequena Wanda é ao mesmo tempo uma alienada, uma idiota, uma mulher livre, um clown, um anjo, uma cadela. Na última sequência encontramo-la num bar, no meio de desconhecidos, eternizada com um cigarro na mão, a cabeça baixa. Gesto simples, de uma compaixão infinita. Wanda é uma santa.
Stéphane Delorme, CAHIERS DU CINÉMA
Uma mulher loira acorda a custo numa casa miserável. Vestida de branco, rolos no cabelo, atravessa a paisagem, pequeno ponto claro na terra negra de carvão, astronauta perdido no meio das cinzas lunares. Onde vai Wanda tão perdida? Divorciar-se sem protestar, abandonar sem combate os filhos ao pai, antes de partir numa deambulação pela América, que a realizadora pinta sem qualquer traço de folclore, oferecendo a imagem de um país sem alma. Wanda encontra de seguida ‘Mr.Dennis’ (Michael Higgins, formidável, uma espécie de Groucho Marx sem ser cómico), um ladrão que transpira angústia, cerveja, mediocridade e que se recusa a exprimir o menor sentimento. Mr.Dennis vai pegar em Wanda, o que não é muito difícil, e voltar a dar-lhe um rosto um pouco mais humano, o que não lhe pode fazer mal. Porque Wanda não tem força, é uma estrangeira no mundo, um Bartleby no feminino. Ela acha que está morta, é uma nulidade, estúpida. Estes anti-heróis, Bonnie e Clyde antonianos, Zampano e Gelsomina do Oeste, preparam um golpe. Cobarde, é claro. WANDA é um grito de desespero mudo, um auto-retrato bem mais violento por ser contido, um retrato de uma mulher angustiada sem concessões, uma descrição dos excluídos do capitalismo. Uma obra-prima intemporal.
Jean-Baptiste Morain, LES INROCKUPTIBLES
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REALIZAÇÃO
Barbara Loden
ARGUMENTO
Barbara Loden
DIRECÇÃO DE FOTOGRAFIA
Nicholas T. Proferes
MONTAGEM
Nicholas T.Proferes
SOM
Lars Hedman
MONTAGEM DE SOM
Harvey Greenstein
MISTURAS
Dick Vorisek
PRODUÇÃO
Harry Shuster
INTERPRETAÇÃO
Barbara Loden (Wanda)
Michael Higgins (Norman Dennis)
Dorothy Shupenes (Irmã de Wanda)
Pete Shupenes (Cunhado de Wanda)
Jerome Their (John Goronski)
Charles Dosinan (Pai de Norman)
Marian Thier (Sra. Godek)
ORIGEM
EUA, 1970
DURAÇÃO
102'







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A REALIZADORA
Morreu em Nova Iorque, com um cancro no fígado, em Setembro de 1980. Tinha 48 anos, gritou ‘Shit!, Shit!, Shit!’.
Morreu zangada, como contou aquele que foi seu marido, o realizador Elia Kazan (contou-o na sua autobiografia, ‘A Life’). A notícia da morte foi lida no palco do Festival de Deauville, onde ‘Wanda’ devia ser apresentado nessa noite de Setembro. Dez anos antes o filme estreara-se num cinema de Nova Iorque, o Cinema II, mas não passara em mais lado nenhum dos EUA, e até mesmo o êxito crítico (americano) ficara-se pelos jornais nova-iorquinos. O Prémio da Crítica em Veneza em 1970, que nada contribuira pelo sucesso americano do filme, alimentara, no entanto, um fascínio europeu. E dez anos depois, era na Europa que se procedia à redescoberta de ‘Wanda’, filme cuja presença parecia ter sido apagada. A exibição em Deauville, como, um ano antes, a sua selecção para o Festival de Edimburgo, na secção ‘Women and Film’, era um sintoma, mas Loden já não teve tempo para assistir.
Nasceu no Ohio em 1932. A infância foi dificil - típica da América ‘white trash’. Quando, no Festival de Veneza, deu uma entrevista sobre ‘Wanda’ e sobre a protagonista ao crítico Michel Ciment, recordou: ‘Venho desse tipo de ambiente [que é mostrado no filme], que não tinha nada a ver com a minha natureza. Eu pensava que eu é que não era normal. Quando parti, percebi que não era eu que não era normal, era aquilo que me rodeava que estava doente. Wanda não tem os mesmos meios que eu. Eu devo ser mais inteligente do que ela. Ela utiliza os meios que pode. Eu utilizei outros. Se eu tivesse ficado na Carolina do Norte, nas montanhas, ter-me-ia casado aos 17 anos, teria filhos, às sextas-feiras e sábados à noite embebedar-me-ia. Tive a sorte de partir, mas durante anos fui como Wanda, uma morta-viva. Até aos 30 anos atravessei a vida como uma autista. Não recebendo e não dando nada, porque é preciso protegermo-nos das forças que nos querem agredir, das pessoas, da cultura e do meio que nos rodeia. As mulheres encontram a sua identidade com um homem. Wanda não pode sobreviver a não ser agarrando-se à ambição de um homem. Pensa não poder viver de outra maneira. É uma atitude comum nas mulheres, pelo menos na América’.
barbara, maggie, marilyn. E Barbara Loden partiu. Aos 17 anos chegou a Nova Iorque, foi dançar para um ‘nightclub’, o Copacabana. Quaria ser famosa. Serviu de modelo a páginas de ‘pulp fiction’, tinha 23 anos quando conheceu Kazan. Isso aconteceu em 1955 (em 1967 casaram-se), tinha ele 44 anos. A palavra a Kazan: ‘Encontrei uma jovem actriz que, anos depois, seria a minha segunda mulher... [Ela] era dura com os homens, destemida nas ruas, desconfiada de todos os princípios éticos’.
Aos 25 anos, depois de apontamentos em TV, teve o primeiro papel de teatro na Broadway. Tornou-se membro da Lincoln Center Repertory Company, ganhou um Tony pela sua interpretação em ‘After the Fall’, a peça de Arthur Miller (encenação de Kazan) onde fazia de Maggie, personagem com que o dramaturgo norte-americano exorcizou a sua relação com Marilyn Monroe. Para Kazan, que conheceu Monroe, de quem foi amante, havia relações claras a estabelecer entre Barbara e Marilyn: ‘As duas tiveram uma infância quase idêntica, que as deixara neuróticas, frequentemente desesperadas e com sentimentos difíceis de controlar’.
Em 1960 Kazan deu-lhe um papel em ‘Wild River’ e um ano depois foi para ela a personagem da irmã promíscua de Warren Beatty em ‘Esplendor na Relva’. Em 1967 o realizador escreveu o autobiográfico ‘The Arrangement’, sobre sua experiência de homem na meia idade cuja vida é sacudida por uma mulher mais jovem - a história de Elia e de Barbara. O projecto de filme contemplava Marlon Brando e Loden. Quando Brando desistiu, foi chamado Kirk Douglas mas para o estúdio o par Douglas/Loden não era comercialmente atractivo. Faye Dunaway, que estava nos píncaros por causa de ‘Bonnie & Clyde’, foi a solução e Loden foi dispensada. (Shit!, shit!, shit!) Barbara nunca perdoou a Kazan por não ter lutado por ela - e não estava sequer satisfeita com a forma como Kazan descrevia a sua personagem. Era assim: ‘Ela não precisava de analista para reconstruir a sua auto-estima. Tudo o que ela precisava era de um espelho’)
Em 1970 Barbara realizou o seu filme. ‘Wanda’, história de uma sonâmbula existencial, seria o corte, foi o momento de consciência, de autonomia para a realizadora (a seguir o casamento com Kazan iria desfazer-se). Ler hoje o que o marido escreveu sobre ela (ficaram poucas palavras dela...) é ver a mulher sempre sobre a perspectiva da fantasia do homem. É isso o que se tem dito e escrito, hoje, quando o novo interesse sobre o filme e sobre a realizadora tem levado à análise e interpretação das páginas da biografia de Kazan (e dos filmes que ele fez em que arranjou papéis para ela; e da história que ele escreveu, e filmou, sobre ele e ela) lendo aí, vendo aí, um paradigma: os sinais do apagamento de uma identidade - a mulher, seja Barbara, Wanda, Maggie, Marilyn, é uma força da natureza, instintiva, criatura de paixão, sem, no entanto, se conseguir compreender a si própria; o homem é que a estrutura.
Aos 38 anos, Barbara tinha, finalmente, obra. E um prémio num festival europeu. Kazan sentiu a diferença. ‘Quando a conheci, ela não tinha por onde escolher, a não ser depender da sua atracção sexual. Mas depois de 'Wanda' já não precisava de ser assim, já não precisava de usar roupas que exaltavam a sua figura, já não precisava de parecer uma mulher frágil e insegura que dependia dos homens que tinham poder... Percebi que a estava a perder, mas eu também estava a perder interesse na sua luta. Ela tornou-se até descuidada em relação à casa, e eu sou um homem à antiga’ (já muitos repararam como esse argumento é parecido com os argumentos que o marido de Wanda usa no filme para pedir o divórcio...)
No ano do filme houve segundos de fama (no DVD da edição francesa de ‘Wanda’, um extra mostra um excerto da participação televisiva de Barbara Loden no Ed Sullivan Show; o entrevistador não vira o filme, mas citava um crítico nova-iorquino que o considerara o melhor do ano; perguntou-lhe: ‘Isso vai aumentar as receitas?’. ‘Acho que não’, respondeu Loden. Nesse mesmo programa estavam Yoko Ono e John Lennon; Yoko e Barbara mostraram admiração mútua e no final Loden acabou com a pandeireta na mão no palco com a Plastic Ono Band).
Até à morte deu alas de arte dramática, dirigiu produções ‘off off Broadway’, realizou duas curtas para TV. Nos seus arquivos foram encontrados argumentos para cinema, um deles sobre uma actriz alcoólica. No dia 5 de Setembro de 1980 deveria voar para Deauville onde um filme chamado ‘Wanda’ fora programado. Shit! Shit! Shit!
Vasco Câmara, Público
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REALIZADORA’
BARBARA LODEN
1932 - 1980
REALIZADORA
1970
Wanda
ACTRIZ
1960
Wild River | Kazan
1961
Splendor In The Grass | Kazan
1968
Fade-In | J.Taylor
1970
Wanda | Loden
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Dia 18
Burr Steers, EUA, 2002, 97'
SINOPSE
Depois de chumbar mais um ano ano, Igby (Kieran Culkin) decide sair de casa à procura de uma nova vida. Com um pai esquizofrénico (Bill Pullman) e uma mãe distante (Susan Sarandon), o rapaz de 17 anos quer acima de tudo libertar-se da sua opressiva família e encontrar em sentido para a sua vida. Para isso, viaja até Nova Iorque onde encontra o seu
padrinho (Jeff Goldblum) e uma série e personagen muito estranhas, como a namorada dele (Amanda Peet) e a aborrecida Sookie (Claire Danes).
De repente, em pezinhos de lã (as campanhas de marketing massivas costuma ficar reservadas para outro tipo de produtos), chega aquela que é já uma das boas surpresas do na. E “A Estranha Vida de Igby”, primeira obra de Burr Steers, é mesmo um daqueles objectos que, pela sua "peculiaridade" (não é todos os dias que um filme começa com dois filhos a estrangular, de forma cómica e até à morte, a mãe.. .), parece estar destinado ao culto. Algo que, aliás, a recepção crítica nos EUA deixa antever, tal a divisão radical de opiniões, entre adoração e repúdio.
No centro de mais este exemplo da vitalidade recente - pense-se em " Roger Dodger" ou "É Agora ou Nunca" - do dito "cinema independente americano" está Igby (notável Kieran Culkin, irmão de Macaulay; depois deste filme, deixará de ser visto apenas como uma das crianças que partilhou a cama de Michael Jackson.. .), um adolescente de 17 anos, cínico e misantropo. Expulso de várias escolas privadas, põe-se em fuga para Nova Iorque, à procura de um significado para a sua existência e de romper com uma família abastada mas disfuncional: a mãe (Susan Sarandon) é uma megera cruel e egocêntrica, viciada em comprimidos; o pai (Bill Pullman) está há anos a vegetar num hospital psiquiátrico, após um esgotamento nervoso; e o irmão mais velho (Ryan Phillippe), Republicano e estudante de Economia ("Neofascismo", segundo Igby), é um pedante insensível.
Desde logo, ressalte-se o óbvio: a desorientação e a raiva do jovem anti-herói perante a "hipocrisia" e a "falsidade" do mundo adulto são mais do que reminescentes do Holden Caulfield de "Catcher in the Rye" (e, depois de "É Agora ou Nunca", não deixa de ser curioso que, num pequeno espaço de tempo, apareçam dois filmes sobre os quais paira a sombra da obra de J.D. Salinger), a quem Igby se assemelha, numa versão para o séc. XXI. Mas não vale a pena empolar essas proximidades, até porque o próprio Steers, se nunca escamoteou a influência de Salinger, também não se coibiu de convocar a memória de Hal Ashby ("Harold e Maude" deve ter sido decisivo para cultivar o gosto pelo humor mórbido), referência à qual podíamos acrescentar outras, mais actuais: "Ghost World" ou "Os Tenenbaums" (".. .Igby" fica aquém do filme de Wes Anderson, mas não deixa de ser tentador ver em Steers mais um potencial "wonderkid").
Serve isto para dizer apenas que não é só de "teen angst" que se fala aqui. O filme de Steers (pormenores biográficos interessantes: participou como actor em "Cães Danados" e "Pulp Fiction" e os seus tios são Gore Vidal e Jackie Kennedy) vai além da recuperação do tema das dores de crescimento: é tão ou mais importante o olhar, ao mesmo tempo cáustico e caloroso, que lança sobre a intelectualidade e a boémia nova-iorquinas, através de uma colecção de personagens que, à falta de melhor forma de passar o tempo, se queixam incessantemente dos seus "problemas".
É com elas que Igby se cruza, ao longo de uma série de episódios (não há propriamente uma "narrativa"), dolorosos e divertidos, que vão ilustrando as suas aventuras enquanto deambula pela cidade, num tom rugoso que se adequa à turbulência do retrato de uma existência à deriva. E são também estas figuras "offbeat" o trunfo de um filme, acima de tudo, admiravelmente bem escrito. Ainda para mais quando surgem defendidas por um formidável grupo de actores. Jeff Goldblum, Claire Danes, Amanda Peet ou Jared Harris comprovam que este é um daqueles casos em que as estrelas sacrificam ordenados chorudos perante a sedução do perfume de uma "liberdade" que raramente lhes é permitida. Opção compreensível, tendo em conta a inteligência de um argumento cheio de espirituosidade mordaz (pérolas do género "se o Céu é um lugar tão bom, porque é que ser crucificado é um sacrifício tão grande?"), com diálogos orgulhosamente artificiais: na "vida real" ninguém fala assim, mas a verve que em "...Igby" todos parecem exibir, reagindo com ironia e sarcasmo insuperáveis a tudo o que os rodeia, serve para disfarçar o que é irreprimível (e comovente): a solidão e a infelicidade.
Frágil e delicado, à semelhança das personagens, ao querer ser tanto ao mesmo tempo - comédia negra, sátira social, tragicomédia -, o filme arrisca por vezes a inconsistência (há momentos em que parece comprazer-se em olhar para o umbigo), mas não há como negar (e aplaudir) a coragem das suas ambições. Por isso mesmo, é uma obra que apetece abraçar, enquanto se espera pelo que Steers possa fazer a seguir.
Vasco T. Menezes, Público
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REALIZAÇÃO
Burr Steers
ARGUMENTO
Burr Steers
INTERPRETAÇÃO
Kieran Culkin
Claire Danes
Jeff Goldblum
Bill Pullman
Susan Sarandon
Jared Harris
Amanda Peet
Ryan Philippe
Rory Culkin
MÚSICA
Jörn-Uwe Fahrenkrog-Petersen
DIRECÇÃO DE FOTOGRAFIA
Wedigo von Schultzendorf
MONTAGEM
William Anderson
DIRECÇÃO ARTÍSTICA
Roswell Hamrick
CENÁRIOS
Jennifer Alex






BURR STEERS
2002
a Estranha Vida de Igby
(Igby goes down)
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