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cineclube de faro

História > INFORMAÇÕES  

   

 

UM POUCO DE UMA GRANDE HISTÓRIA

Foi durante o fascismo...


 

Com os seus 54 anos de actividade ininterrupta, o Cineclube de Faro é o segundo cineclube mais antigo de Portugal. Nascido a 6 de Abril de 1956 - através da sua primeira sessão de cinema no Cinema de Santo António, sala de espectáculos onde se manteve durante 27 anos, com duas exibições mensais -, a sua história confunde-se com a do cineclubismo português.

Na realidade, até à revolução de Abril jogou um significativo papel de combate ao regime fascista, mesmo vigiado de perto pela PIDE, mesmo os seus boletins tendo sido sistematicamente examinados pela Comissão de Censura. Com a maciça participação local - incluindo personalidades que o honraram com a sua colaboração (Dr. Joaquim Magalhães, Dr. Roberto Nobre, o poeta António Ramos Rosa, o pintor Manuel Batista, Mário Zambujal, entre tantos outros) - foi foco de contestação ao poder político da altura.

Todos aqueles que participaram nessa época difícil, dirigindo este cineclube com a mestria de programar com qualidade fintando a censura e a vigilância, foram já nos anos 90 agraciados com o título de “sócios honorários”. Não só eles (a menção incluiu naturalmente os mais importantes dirigentes desta associação a partir do 25 de Abril), mas muito principalmente eles. Condições: nenhumas. Boa vontade: imensa. Coragem: toda. Alguns ainda nos agraciam com a sua presença assídua nas nossas actividades, o que diz pouco da nossa programação, mas revela tudo sobre a cinefilia que, paixão antiga mas nunca esmorecida, os fez remar contra correntes tão fortes à época.

A eles tudo devemos. Ou quase tudo – porque sem os que lhes seguiram...


Reprodução da capa do 1º boletim do CCF
6 de Abril de 1956
Douro, Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira
Regresso Eterno, de Jean Delannoy


Cinema Santo António


António Ramos Rosa recebe medalha de sócio honorário I Encontros de Cinema, Abril 1997



 

Os anos de Abril...

O CCF sobreviveu igualmente à fase mais revolucionária do pós-25 de Abril. As suas actividades - multiplicação de sessões em 16 mm por pequenas localidades algarvias, filmes de caracter ideológico fortemente marcado, debates sobre o papel político da 7ª Arte - provam quanto se soube adequar à época sem nunca perder, contudo, os seus iniciais objectivos de divulgação cinematográfica.

Numa época em que tantas associações similares fecharam as portas, exactamente por os seus directores se terem consagrado essencialmente às lutas político-partidárias, o CCF lá foi mantendo o seu dinamismo à custa de títulos revolucionários, muito entusiasmo e ainda mais polémica. Da carta de direitos do espectador constavam, à altura, o de patear todos os filmes que cheirassem a mensagem burguesa, reaccionária e contra-revolucionária... O que era cumprido!! Bons velhos tempos!


20º aniversário - 1976
Deus, Pátria, Autoridade e Mao Tse-Tung...


25º aniversário - 1981
A transição de espaços:
do Santo António para o Lethes...


 

Os anos do video...e não só!

Os anos 80 fortaleceram-no de uma maneira evidente, mesmo que contra a corrente que o home-video provocou na diminuição da afluência às salas.

Instalado definitivamente no Teatro Lethes, as suas publicações alcançaram um nível pouco frequente até aí; de uma maneira sistemática optou por seleccionar os seus filmes com ideias unificadoras - géneros, realizadores, actores, cinematografias, temas vários -, o que deu uma maior coerência às suas sessões; colaborou sistematicamente com outras entidades culturais da região; intensificou os contactos entre cineclubes; promoveu conferências, debates, encontros...

Ora, se ao Delegado Regional da Secretaria de Estado da Cultura, Dr. Tomás Ribas, se deveu em 1982 a aquisição de equipamento de projecção e respectivos acessórios, bem como à transformação completa de um dos camarotes desse magnífico Teatro para a sua nova finalidade de cabine de projecção, à Delegada Regional Drª Isilda Periquita se deveu, entre 1988 e 1990, a maturação da estranha e prepotente ideia de que, afinal, tal Teatro não estava preparado para sessões de cinema (?!?!). Esta surreal história teve várias repercussões importantes: pela primeira vez foi o CCF objecto de notícia na televisão...; pela primeira vez ficou o CCF sem espaço para exibição cinematográfica!; e, aliado à coincidência de obras nesta sede que com muito gosto ocupamos desde a nossa fundação, algum desânimo se fez sentir nos directores desta associação.


Teatro Lethes


Cinema Herege, 1985


1º Encontros de Cineclubes do Sul, 1986
Ao centro, Dr. Tomás Ribas


 

1991 foi, assim, ano de um certo decréscimo no ritmo das actividades. Contudo, foi nesse mesmo ano que o Instituto Português da Juventude convidou o CCF a inaugurar o Centro da Juventude local, com um ciclo de cinema sobre - previsivelmente - a juventude. Sangue, de Pedro Costa, foi um dos (bem) escolhidos. E desde aí passou a ser esse o nosso espaço de exibição regular.



Auditório do IPJ

 

O passado recente

1992 foi o início de uma outra “era”, por assim dizer. Confrontados os sócios com a possibilidade de se encerrar o Cineclube, dada a inexistência de novos e jovens quadros que pudessem reforçar uma extraordinária mas fatigada equipa, a resposta foi francamente positiva. E o élan retomou esta casa particularmente após Novembro de 1993, quando nos candidatámos - e conseguimos... - aos fundos do Media Salles para levar a cabo a 1ª Semana de Cinema Europeu:


Catálogo da Semana do Cinema Europeu, Nov 1993

 

- sete filmes em sete dias

- um catálogo

- a primeira homenagem nacional a Augusto Cabrita

 

- uma exposição de fotografias de Agnès Varda que estivera patente em Lisboa

- uma mesa-redonda sobre o cinema europeu

- as primeiras serigrafias encomendadas a Eduardo Coutinho


O CCF acordou para outros e mais ambiciosos voos.



Exposição Agnès Varda, Nov 1993

 

Voos que se foram cumprindo - um amplo ciclo de cinema chinês, acompanhado por um espectáculo de Marionetas Chinesas bem como da inauguração de duas exposições de arte daquele país com a presença do embaixador, implicou que as entidades locais passassem a olhar com um ainda maior respeito para a capacidade organizativa desta associação. Assim, à medida que aumentava tal confiança, aumentavam igualmente os apoios concedidos (particularmente pela Câmara Municipal), e quanto mais aumentavam os apoios, mais actividades se conseguiam dinamizar...
Ainda bem!



Espectáculo de Marionetas Chinesas, Mai 1994

 

Assim, os últimos 8 anos foram de crescimento e consolidação. Muito foi obtido de prestigiante não só para nós mas também para a cidade:

·          a publicação, em 1996, da recolha de depoimentos inéditos de realizadores portugueses como forma de comemorar o centenário do cinema português (que mereceu do Director da Cinemateca a afirmação “É um documento que fará história”!), ao qual chamámos “Os Bons da Fita”;



Cinemateca em Faro, Nov 1997

 

·          a publicação do livro, também ele pioneiro (ainda disponível para venda, por sinal...), sobre o cinema de António Reis e Margarida Cordeiro – A Poesia da Terra, é o sub-título –, a propósito da primeira itinerância que a Cinemateca Portuguesa organizou com um Cineclube, isto no ano de 1997;


António Reis e Margarida Cordeiro - A Poesia da Terra

 

·          o recital, já agora também inédito na carreira da actriz, que convidámos Eunice Muñoz a realizar sobre Cinema e Poesia (em 1999), acompanhada por Pedro Caldeira Cabral;



Eunice Muñoz e Caldeira Cabral, Abr 1999

 

·          os três concertos, também eles inovadores, que desde 1995 o Cineclube de Faro desafiou Zé Eduardo a concretizar – partitura original para acompanhamento ao vivo de “O Garoto”, de Charlot, primeiro, e duas edições de “Canções de Filmes Portugueses”;



Zé Eduardo, "O Garoto de Charlot", Abr 1995

 

·          e que dizer da vinda a Faro dos Taraf de Haïdouks, no âmbito de um ciclo de cinema cigano, que diabolizaram as nossas almas, corações, emoções, transportando-nos ao mundo mágico da insubmissão eterna e da irreverência permanente?



Taraf de Haïdouks, Abr 1998

 

·          ou das ante-estreias de filmes portugueses em Faro, como “O Fantasma”, de João Pedro Rodrigues, “Inquietude”, de Manoel de Oliveira, “Quando Troveja”, de Manuel Mozos, “Fintar o Destino”, de Fernando Vendrell, ou “Duplo Exílio”, de Artur Ribeiro?


 

·          isto para não falar dos muitos outros realizadores que vieram apresentar os seus filmes entre nós; portugueses foram João Botelho, João Mário Grilo, Joaquim Sapinho, António Cunha Telles, Fernando Matos Silva, Rui Simões, Edgar Pêra, Jorge Silva Melo, Margarida Gil, Pedro Costa, Graça Castanheira, Catarina Portas, Luís Brás, Luciana Fina e Olga Ramos, Rosa Coutinho Cabral... e estrangeiros foram Amauri Tangará, Jean Chabot, Catherine Martin, Olivier Ballande, e EMIR KUSTURICA - é verdade, em 1999!



João Mário Grilo e O Fim do Mundo, Nov 1993
Emir Kusturica, Jul 1999


 

·          os espectáculos musicais, outros ainda, que temos promovido – Bruno Chevillon, a propósito de Pasolini, Anabela Duarte, a propósito de Fassbinder;



Bruno Chevillon, Anabela Duarte,
Nov 2000


 

·          ou, last but not the least, os Encontros de Cinema (somos os únicos a realizá-los com periodicidade anual), que vão já na sua 5ª edição e dos quais se preparam a 6ª, dedicada ao Cinema como Arte Visual, para Dezembro deste ano.

Alguns números impressionam igualmente: estabilizámos nos 120 filmes por ano (em 1998 demos 164!!), numa média de 140 sessões; nos 600 sócios; nas 10.000 entradas por ano. E convém não esquecer que Faro é uma cidade com cerca de 50.000 habitantes...


V Encontros de Cinema, Dez 2001

 

 

O estado da situação

É sempre com prazer que encaramos este nosso trabalho “carola” e sem qualquer remuneração - para além da obtida pela satisfação de ter gente para ver os filmes, e debater os filmes, e aprender sobre filmes, e amar os filmes.
Persistimos em colaborações com entidades e instituições muito diversas, o que demonstra que, ao nível local e regional, se sabe que se pode contar com o CCF para promover um ciclo de bom cinema.

 


Promovemos extensões de Festivais de Cinema realizados em Portugal: até à data da sua última edição em 2001, o do Cinema Documental da Malaposta; o Ulisses - Festival de Cinema para Crianças – enquanto foi realizado; e, é claro, o FICA - Festival Internacional de Cinema do Algarve, à conta do qual temos mostrado e visto muito boas curtas-metragens portuguesas e estrangeiras! Desde 2002, isto é, desde a sua 1ª edição, somos extensão (e por proposta deles!) do DocLisboa, o Festival de Cinema Documental de Lisboa; e também em 2002 retomámos as extensões do Cinanima (animação); e também em 2002 fomos extensão do Festival Gay e Lésbico de Lisboa... Serviço público e para o nosso público!



Todos os Maios, extensão do FICA!

 

Somos parceiro fundador de um dos mais interessantes, corajosos, estimulantes e profícuos projectos (inédito a nível nacional, convém acentuar), o qual é “JCE-Juventude/Cinema/Escola”, da Direcção Regional de Educação do Algarve, que tem como objectivo ensinar cinema, de uma maneira sistemática e sequencial, nas escolas de 2º e 3º ciclos do ensino básico e do ensino secundário. Farol que alumiou outros trabalhos a este nível, infelizmente não sediados em dependências do Ministério da Educação mas em todo o caso feliz e previsivelmente ancorados em cineclubes: Viseu, Covilhã, Avanca e os mais que se seguem...

Protocolos estabelecidos tanto com a Escola Superior de Educação como com a Reitoria da Universidade do Algarve. Ou o recentemente celebrado com a Associação Académica da Universidade do Algarve, para passar a exibir filmes nos espaços dos dois campus universitários, Gambelas e Penha. E termos sido membros de pleno direito da Rede Euro Kids Network até à extinção desta por decisão da Comissão Europeia em Dezembro passado, rede europeia que, como o nome indica, incluía salas de cinema com programações específicas para o público infanto-juvenil...



Programa JCE da DREAlg
Festa do Cinema, alunos 5º ano
Faro, Jun 2001

 

Em Abril de 2001, aos 45 anos, atingimos a maioridade cybernauta: inaugurámos este website, que teve a sua imagem renovada, pela mão de Eduardo Coutinho, em Abril de 2002. Ron Trevor é o webmaster, e que trabalheira lhe vamos dando!

Contudo, por vezes um sentimento de insegurança e preocupação assoma: não detemos nenhuma sala nem qualquer equipamento de projecção; como qualquer associação, toda a independência financeira é um estado relativo, dado que as quotas dos associados (2,5€ mensais!!!) não possibilitariam, por si só, 1/3 das nossas actividades usuais.



O Website de CCF em Março 2002.

 

Assim, estamos inevitavelmente sujeitos às contingências e flutuações das políticas culturais tanto da autarquia, como das restantes entidades públicas, e às suas quantas vezes questionáveis decisões - como foi o recente caso da autorização da destruição do Cinema Santo António, um símbolo da nossa cidade, o que infelizmente aconteceu contra a nossa vontade e luta no ano transacto. E como lutámos! E como estamos inconformados!

Juntando a isto o recente fenómeno dos multiplexes (dois complexos de salas, um com 3 écrans, outro com 9 écrans), só podemos ter duas certezas:



Homenagem ao Cinema Santo António
A última sessão - 31 de Julho de 2001
Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore
A dor continua a ser demais...

 

SE OS SÓCIOS E AS ENTIDADES NÃO NOS ABANDONAREM, SOBREVIVEREMOS.
AO SOBREVIVERMOS, CONTINUAREMOS A SER A ALTERNATIVA QUE SEMPRE FOMOS NESTA CIDADE!

A Direcção do CCF

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É para todos vós que trabalhamos!

 

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